Ao renunciar às humanidades clássicas, a França renuncia a sua influência

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O texto não trata de nenhuma temática especificamente voltada para questões ambientais. Entretanto, como se trata de um texto que apresenta um problema educacional sério que a França tem passado, e por ser um problema que enseja muitos paralelos com a nossa realidade, especialmente a desvalorização dos conhecimentos das ‘humanidades’ (‘para quê serve isso?’) em favor de investimentos cada vez mais pontuais em respostas ‘pragmáticas’ para demandas imediatistas (e a cada dia surge o novo ‘profissional do momento’), achamos oportuna sua tradução e divulgação por aqui. 

 

 

 

Por Romain BrethesBarbara CassinCharles DantzigRégis DebrayFlorence DupontAdrien GoetzMarc FumaroliMichel OnfrayChristophe Ono-dit-Biot, Jean d’OrmessonErik OrsennaDaniel RondeauJean-Marie RouartPhilippe Sollers et Emmanuel Toddna página do Le monde**

 

A França se tornou suicida? Em alguns meses, muitas sentenças definitivas foram dadas, sem que se saiba realmente quem está operando: supressão da cultura geral para entrada na Sciences Po; invenção, digna dos Monty Python, de um concurso de recrutamento de professores de letras clássicas sem latim nem grego; desaparição do ensino de história-geografia para o último ano do segundo grau…

Muitos disparos violentos, sem aviso, contra a cultura e contra o lugar que ela deve ocupar nos cérebros de nossas crianças e dos adultos que eles serão um dia.Um lugar que se contesta hoje em nome do pragmatismo que impõe a globalização. Mas qual pragmatismo, no momento em que, em todo o mundo, da China aos Estados Unidos, o destaque é posto sobre a cultura e a diversidade da educação, o famoso soft power?

Ao banir das escolas, pequenas ou grandes, os nomes de Voltaire e de Stendhal, de Aristóteles e de Cícero, cessando de transmitir o legado de civilizações que inventaram as palavras ‘política’, ‘economia’, mas também esta magnífica ideia que é a cidadania, em suma, privando nossas crianças das melhores fontes do passado, esses ‘visionários’ não estariam em vias de comprometer nosso futuro?

Em 31 de janeiro aconteceu em Paris, sob a égide do ministério da educação nacional, um colóquio intrigante: ‘Línguas antigas, mundos modernos. Re-fundar o ensino do latim e do grego’. É que o entusiasmo pelo latim e pelo grego é, apesar das aparências, sempre vivo, com ais de 500000 alunos praticando uma língua antiga no colégio ou no liceu. O ministério da educação nacional anunciou, aliás, nesta ocasião, a criação de um prêmio Jacqueline de Romilly, recompensando um professor particularmente inovador e merecedor na transmissão da cultura antiga. Que intenção louvável!

Mas que paradoxo sobre patas, quando se considera a empresa de destruição sistemática levada a cabo depois de muitos anos por uma classe política míope, tanto de direita como de esquerda, contra os conhecimentos sacrificados sobre o altar de uma modernidade mal compreendida. A pira já solta fumaça. Os argumentos são conhecidos. A ofensiva contra as línguas antigas é sintomática, e essa agressividade do Estado se junta aos ataques cada vez mais freqüentes contra a cultura em seu conjunto, considerado doravante como discriminatório demais pelos burocratas virtuoses na arte da demagogia e disfarçados de partidários da igualdade, enquanto eles são os coveiros.

Graças a essa cultura que se denomina ‘humanidades’, a França forneceu ao mundo algumas das mais brilhantes cabeças pensantes do século XX. Jacqueline de Romilly, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Naquet, Lucien Jerphagnon, Paul Veyne são lidos, citados, ensinados em todas as universidades do mundo.

Concomitante ao ranking de Xangai e em sua tentativa de dar à França um lugar na competição global de conhecimento e pesquisa, a classe política parece cega pela primazia concedida às disciplinas com impactos econômicos mais ou menos aleatórios.

O presidente da República, para quem as universidades americanas constituem um modelo reconhecido, deveria meditar sobre esta realidade implacável, visível para quem freqüenta os colóquios internacionais ou permanece por algum tempo nos Estados Unidos. Que sejam as prestigiosas universidades da Ivy League (Harvard, Yale, Princeton…) ou aquelas mais modestas e desconhecidas de Iowa ou do Kansas, todas possuem seu departamento de línguas antigas.

Como o explicar? Pela simples razão que uma nação potente e ambiciosa não se interdita nada e sobretudo não faz nenhuma discriminação entre as disciplinas, sejam literárias ou científicas. O famoso soft power, ou ‘poder suave’, consiste em usar de uma influência às vezes invisível, mas muito eficaz, sobre a ideologia, os modos de pensamento e a política cultural internacional. Os Estados Unidos, perdendo velocidade no plano econômico, construíram uma arma formidável, explorando da melhor forma o abandono pela Europa desse apego à cultura.

Para Cícero, ‘se não sabes de onde vieste, serás sempre uma criança’. Isto é, um ser sem poder, sem discernimento, sem capacidade para agir no mundo ou para compreender seu funcionamento.

Eis a plena utilidade das humanidades, da história, da literatura, da cultura geral, utilidade a qual nós estamos ligados e que nós defendemos, mulheres e homens verdadeiramente pragmáticos, preocupados com a partilha democrática de um saber comum.

 

 

 

*Os autores são todos filósofos e escritores.

**Tradução de Luiz Felipe M. Candido

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