O inevitável “subdesenvolvimento”

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Por Vicent Loix, em sua página

Tradução de Luiz F. M. Candido

A crise ecológica que sofre o planeta tem um vínculo direto com um modelo econômico que se baseia exclusivamente no consumo ilimitado de recursos. Tudo é questão de crescer e crescer, consumir e consumir. Igual à econômica, a crise ecológica nasce sob duas premissas básicas: avareza de uns poucos e principalmente desigualdade, já que a uma maioria se priva de seus recursos para que sejam roubados, consumidos e desperdiçados por uma minoria.

O que está dito acima foi fixado com base nos valores da Pegada Ecológica que elabora periodicamente a Global Footprint Network, que mede em conjunto os diversos impactos gerados pelo ser humano (consumo de recursos naturais, contaminação, energia, uso da água, agricultura, resíduos, etc.). Agora, um recente estudo de Pedro Prieto, vice-presidente da AEREN (Asociación para El Estúdio de los Recursos Energéticos), ratificaria a dita desproporção, neste caso, no consumo energético mundial. Alguns dados da investigação são muito curiosos:

– Estados Unidos e Canadá, com 5,1% da população mundial, consomem 21,5% da energia primária mundial. Uma porcentagem idêntica é consumida, note-se, pela soma dos habitantes da África, Índia, Oceania, Ásia exceto China e América Latina, que no total alcançam quase 60% da população mundial.

– Um cidadão norte-americano consome em média o dobro que um europeu, quatro vezes mais que um chinês, cinco vezes mais que um latino-americano e dez vezes mais que um africano.

– Mais de 75% dos habitantes do planeta (África, Oceania, Índia, China, o resto da Ásia e América Latina) estão abaixo da média em relação ao consumo de energias primárias. Seu gasto energético, em conjunto, estaria dentro da capacidade de carga do planeta, isto é, a Terra poderia suportar tal consumo.

Em geral, o estudo mostra uma vez mais o profundo desequilíbrio existente entre regiões e como na realidade é o nível de vida de 25% da população o que põe em risco a saúde ecológica e econômica do planeta. Como também disse Pedro Prieto: “O cinismo dos enriquecidos é de tal magnitude que chega a culpar os pobres do fluxo humano, mas não se pergunta nunca pelo fluxo de riqueza, tanto em produtos energéticos como em matérias primas e fluxos financeiros”.

Por isso o discurso desenvolvimentista do século passado e sua pejorativa segmentação entre estados “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, há décadas se tornou ridículo. Com só um planeta a nossa disposição é inviável uma civilização plenamente “desenvolvida”, pelo menos da maneira com que se concebe atualmente. Para que os norte-americanos e europeus continuem desperdiçando se requer necessariamente que a maioria mantenha um consumo menor e abaixo da média. Porque para que as nações menos abastadas (subdesenvolvidas) alcançassem o nível de vida das européias (desenvolvidas), teriam que aumentar o consumo de energia mais de duas vezes. E para que toda a Terra “gozasse” do “American way of life” estadunidense, se requereria incrementar a produção energética entre quatro e cinco vezes, o que deixaria o planeta em uma situação economicamente dantesca e ecologicamente colapsada.

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